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O Legado de um Kaiser: da Baviera para o Mundo

O Legado de um Kaiser: da Baviera para o Mundo
O Legado de um Kaiser: da Baviera para o MundoAFP

A notícia abalou o mundo do futebol esta segunda-feira: morreu Franz Beckenbauer, aos 78 anos.

Franz Anton Albert Beckenbauer: nome incontornável do futebol alemão, europeu e mundial, faleceu este domingo, aos 78 anos, mas para trás deixa um legado incontornável.

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Uma carreira de futebolista recheada de títulos, mas acima de tudo uma das figuras que marcou o futebol para sempre, ao tornar popular a função de líbero, que até podia chamar-se Beckenbauer, tal foi a forma como o alemão conseguiu implementar a sua marca.

Munique: 1945

Beckenbauer nasceu a 11 de setembro de 1945, na cidade de Munique, pouco depois do fim da II Guerra Mundial. A paixão pelo futebol apareceu em tenra idade e levou-o até ao SC München 06, clube onde chegou com apenas seis anos para jogar como avançado, à semelhança do ídolo de infância, o alemão Fritz Walter, que havia brilhado no Mundial-1954, na Suíça.

Apesar de ser adepto do 1860 Munique, foi com apenas 11 anos que assinou pelo Bayern Munique, um clube que ficaria para sempre ligado à sua carreira e à sua vida. Foi aí que começou a recuar no terreno e assumiu em definitivo a posição de líbero.

Beckenbauer e Paul Breitner ao servi
Beckenbauer e Paul Breitner ao serviAFP

Depois de duas épocas na segunda divisão alemã, ajudou o Bayern a subir à Bundesliga em 1964, com um impressionante registo de 17 golos em 37 partidas.

Com Beckenbauer como uma das referências, o Bayern cedo se tornou uma das potências do futebol alemão, ao vencer a Taça da Alemanha logo depois da subida de divisão para, no ano seguinte, vencer a Taça das Taças, o primeiro título europeu de Beckenbauer. A primeira Bundesliga surgiu mais tarde, na época 1968/69. Além do líbero, jogavam em Munique outras lendas como o avançado Gerd Müller, que apontou mais de 500 golos pela formação da Baviera.

Kaiser de braço ao peito

A estreia pela RFA (República Federal Alemã ou Alemanha Ocidental), como seria de esperar, não tardou. Em 1965, iniciou a caminhada da seleção para o primeiro Mundial no qual viria a participar, o de 1966. A RFA perdeu na final com a Inglaterra, mas Beckenbauer, que fez quatro golos nesse torneio, começou aí a tornar-se a grande figura da equipa.

Por isso, não foi de estranhar que no Mundial seguinte, em 1970, o jogador conhecido por Kaiser (imperador) envergasse a braçadeira de capitão da RFA. Desta vez, a seleção inglesa foi derrotada (2-3 após prolongamento) pela RFA, com um dos golos a ser apontado por Beckenbauer.

No entanto, a equipa alemã acabou por perder nas meias-finais, com a Itália, num jogo que ficou eternizado porque Beckenbauer jogou praticamente todo o prolongamento de braço ao peito, depois de partir a clavícula quando a RFA não tinha mais substituições para fazer.

Apesar da desilusão, os anos 70 foram de glória para Beckenbauer e para a RFA, que viria a sagrar-se campeã da Europa em 1972. Quanto ao Kaiser, venceu o tricampeonato com o Bayern Munique e, finalmente, a Taça dos Campeões Europeus, numa final de dois jogos frente ao Atlético de Madrid. Em 1972 (ficou à frente do companheiro de equipa Gerd Müller) e 1976, foi também distinguido com a atribuição da Bola de Ouro.

De volta à casa de partida

De resto, aquele final de 1973/74 foi marcante para a carreira de Beckenbauer. O Kaiser voltou a vencer a Taça dos Campeões Europeus nas duas épocas que se seguiram, mas nenhum título teve tanta importância como o Mundial de 1974.

Em 1974, Beckenbauer sagrou-se campe
Em 1974, Beckenbauer sagrou-se campeAFP

Curiosamente, o topo da carreira de Franz Beckenbauer foi atingido precisamente no ponto de partida. Em Munique, com o capitão Kaiser, de 29 anos, na defesa, a RFA venceu os Países Baixos por 1-2.

Ao longo da carreira, apenas duas equipas portuguesas tiveram o prazer de defrontar o Kaiser: o Vitória FC e o Benfica. Beckenbauer nunca perdeu - 6-2 e 1-1 com o Vitória FC para a Taça das Taças; 0-0 e 5-1 com os encarnados para a Taça dos Campeões Europeus.

Antes de finalizar a carreira, jogou pela primeira vez fora da Alemanha, numa mudança exótica para os Estados Unidos da América, onde encontrou Pelé, seu companheiro no New York Cosmos: "Um dos melhores que alguma vez vi jogar", chegou a dizer a lenda brasileira.

Antes de se retirar, regressou ao país natal para representar o Hamgurgo... com sucesso imediato. O clube, hoje em dia no segundo escalão, venceu o campeonato pela última vez na sua história, em 1982. E voltou outra vez para o encanto nova-iorquino para uma última temporada.

"Foi a melhor decisão da minha vida vir para Nova Iorque. Aqui é tudo tão privado. Vou a sítios sem que as pessoas me reconheçam", disse, em 1978, ao New York Times.

As outras facetas do Kaiser

Em 1983, com 38 anos, terminou a carreira de futebolista, mas nunca deixou o futebol em definitivo.

Com a RFA em crise, depois de um Euro-84 para esquecer, Beckenbauer foi convidado a assumir o cargo de selecionador alemão e quase teve sucesso imediato, acabando por perder o Mundial de 1986 na final para a Argentina, onde brilhava um tal de Diego Armando Maradona.

Selecionador Beckenbauer levou RFA
Selecionador Beckenbauer levou RFA AFP

No entanto, além de vencer o Mundial como jogador, Beckenbauer também atingiu a glória enquanto treinador, batendo precisamente a Argentina na final do Itália-90, numa RFA onde jogavam craques como Klinsmann, Völler e Matthäus.

Tal como aconteceu enquanto jogador, depois de atingir o topo do Mundo como treinador, Beckenbauer procurou novas experiências. Mudou-se para Marselha, onde não teve sucesso, mas voltaria ao tal ponto de partida: a cidade de Munique.

Beckenbauer foi presidente do Bayern até 2009
Beckenbauer foi presidente do Bayern até 2009Profimedia

Na primeira época como treinador do Bayern, venceu a Bundesliga e a Taça UEFA. Retirou-se no ano seguinte. Numa célebre frase, comparou o sucesso a um "veado tímido": "O sucesso é como caçar um veado tímido. O vento tem de estar certo. O cheiro, as estrelas e a lua".

Polémicas

Fora das quatro linhas, completou um círculo ao tornar-se presidente dos bávaros em 1994 - orientou a equipa durante cinco jogos em 1996 -, cargo que ocupou até 2009, tornando-se depois presidente honorário. Foi ainda vice-presidente da Federação Alemã de Futebol e, em 2007, passou a integrar o Comité Executivo da FIFA, entidade que rege o futebol mundial.

As grandes polémicas surgiram um pouco antes, quando foi o presidente do comité organizador do Campeonato do Mundo de 2006, torneio vencido pelos germânicos e referido nostalgicamente no país como "o conto de fadas do verão". 

No entanto, foi esse mesmo evento que acabou por manchar o seu legado. Em outubro de 2015, a revista alemã Spiegel alegou que a DFB tinha comprado votos para ganhar os direitos de receber o torneio mundial, batendo por 12-11 a candidatura da África do Sul. 

Em 2019, os procuradores suíços acusaram formalmente três antigos funcionários da DFB de fraude relacionada com o Mundial-2006, mas deixaram de fora o nome de Beckenbauer. Depois, consideraram Beckenbauer, operado ao coração em 2016 e 2017, "incapaz, por razões de saúde, de participar ou ser interrogado" em tribunal.

Beckenbauer também foi suspenso por 90 dias pela FIFA, em junho de 2014, por alegadamente se recusar a cooperar com um inquérito sobre a atribuição dos Campeonatos do Mundo de 2018 e 2022 à Rússia e ao Catar.

Beckenbauer teve cinco filhos de três relações, uma delas de um casamento. Aos 18 anos, foi retirado da equipa de juniores da Alemanha Ocidental (RFA) depois de a sua namorada solteira ter engravidado e ele se ter recusado a casar com ela.

"Mandei investigar a minha árvore genealógica", disse ele muito mais tarde. Os Beckenbauer "eram pessoas alegres, todos os filhos nascidos fora do casamento. Nós continuamos a tradição".

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